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Néventon Vargas
Engenheiro Civil; Licenciado em Física. Ex-Presidente da ASSEPE - Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa - PB. Secretário de Comunicação Social da CEPA - Confederação Espírita Pan-Americana.
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Sábado, 9 de Maio de 2009

Nada Errado

Néventon Vargas*

A dinâmica universal indiscutivelmente nos leva a conceber uma evolução permanente uma vez que nada existe que seja estático, embora o ser humano encarnado tenda a ver estagnação ou até regressão em função de análise parcial e com parâmetros extremamente limitados a uma visão de mundo que abrange apenas a sua realidade física atual. São, entretanto, apenas duas faces de uma mesma problemática, identificadas com as idéias de quem analisa.

Quando analisamos os fatos do cotidiano procurando explicações que sejam convincentes, satisfazendo a nossa razão, conforme os conhecimentos que adquirimos até então, apenas percebemos aqueles que se alojam na memória com maior intensidade. Tais fatos se imprimem indelevelmente na mente porque apresentam particularidades que despertam a atenção, necessitando tomadas de decisões, análises mais profundas, conclusões pertinentes, tudo para corrigir rumos e assimilar conhecimentos.

Os fatos corriqueiros, que não abalam o fluxo natural dos eventos, não se fixam em nós e por isso não são alvo dos nossos questionamentos. Assim sendo, a simples dúvida com relação àquilo que unanimemente é considerado normal, já é um pequeno abalo da ordem vigente. Isso é bom?

O bom e o ruim, assim como o bem e o mal, fazem parte de uma dicotomia histórica generalizada do ser humano que, por flagrante limitação, insiste em buscar o contrário para cada idéia na tentativa de explicar os eventos isolando-os como se em cada um não existissem variáveis desconhecidas, as quais somente holisticamente poderão ser percebidas.

Entendemos que tudo é bom. Não existe nada errado no Universo. Todas as nossas decisões se inserem no contexto universal como possibilidade de aprendizado, não importando a intensidade do abalo que a ação provoque. Sempre será experiência positiva, por mais errado que possa parecer aos olhos da sociedade.

Se pudermos considerar negativo algum resultado este será o zero absoluto, ou seja, a extrema passividade. Somente a absoluta impassibilidade em relação à realidade que percebemos não gera evolução. É a estagnação total.

Assim sendo, a evolução é filha da inquietude, do questionamento, da insatisfação com o dogma, com a verdade dita absoluta. Isto não significa que o agente consideraria erradas todas as realidades percebidas até então. Simplesmente procura acompanhar a Lei de Evolução ou Progresso, cuja aplicação será tão mais célere, quanto menos nos conformamos com a monotonia do rotineiro, reconhecendo sempre ser possível aprender algo mais e tudo que funciona muito bem é apenas um estágio para se tornar melhor.

O Espiritismo, inserido neste contexto, será tão maior e eficaz na construção de um mundo melhor, quanto maiores forem as disposições dos homens em questioná-lo e pesquisá-lo. No paradigma atual ele segue os passos das religiões, tendendo a confundir-se com elas, perdendo seu caráter essencialmente progressista ao apegar-se à tradição do que está escrito, sem ir ao encontro dos diversos ramos do conhecimento.

A despeito de toda e qualquer rejeição que o Movimento Espírita possa apresentar com relação à dinâmica do Espiritismo, sua avaliação constante e conseqüente atualização são imprescindíveis e até inevitáveis simplesmente porque estão sujeitas a uma lei maior, independente das decisões individuais ou coletivas.

A nós, testemunhas desse processo, cabe decidir se participamos dele ou ficamos à margem.

* Secretário da ASSEPE e Secretário de Comunicação Social da CEPA.

Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

Malhação de Judas

Néventon Vargas*

Nunca consegui aceitar passivamente a manifestação popular da malhação de Judas. Considero-a uma prática bárbara que lembra as atitudes apaixonadas, características de um período negro da história da humanidade que todos gostaríamos de esquecer, quando os estados teocráticos vigeram soberanos, no decorrer da Idade Média.

O que mais me intriga é que tal prática tem a conivência da imprensa, das religiões e da sociedade de uma forma geral, como se uma turba “enfurecida” estraçalhando alguém fosse a coisa mais natural do mundo, por mais simbólico que seja o fato. Aliás, quanto mais simbólico mais estarrecedor se torna.

Somos um país eminentemente cristão, mas de um Cristianismo cada vez mais afastado da moral defendida por Jesus de Nazaré, que com suas palavras e seus exemplos, nos concitava à retidão de caráter e, enfaticamente, ao perdão das ofensas e a reconciliação com os inimigos. Definitivamente não é isso que se salienta quando se dá ênfase à prática a que nos referimos.

Qual seria a postura da sociedade perante a opção pelo linchamento de um criminoso? Que moral teremos para evocar o respeito à lei se somos permissivos com práticas que simbolizam a barbárie?

Nestes tempos, em que inúmeras organizações se engajam em campanhas pela paz e pela convivência solidária e fraterna entre os povos, soa hipocritamente a difusão e o apoio a tais práticas.

Já basta de vinganças! Já basta de guerras! Já basta de terror, de opressão, de invasões, de ódio! Estamos atrasados na assimilação do amor!

Mais benefício faríamos à humanidade se em vez de condenar, malhar, trucidar o criminoso, tratássemos de perdoá-lo, ampará-lo, reeducá-lo, mormente quando já tendo cumprido sua pena prestou conta de seus atos perante a sociedade, tal como Judas, que já pagou pelo crime cometido e já teve o perdão de quem mais sofreu com sua atitude do passado.

Fazemos questão de algum simbolismo? Então vamos pegar o boneco que representa Judas e abraçá-lo, carregá-lo conosco na nossa caminhada, mostrar a ele que não guardamos rancor em nosso coração e que o ódio já não faz mais parte da nossa filosofia de vida.

Segunda-feira, 30 de Março de 2009

UNIÃO E UNIFICAÇÃO

(Mensagem enviada por Milton Medran)

Amigos da ASSEPE e companheiros da CEPA:
Esse episódio da retirada a que se viram forçados esses jovens de João Pessoa, da Federação Estadual, permite que se faça, aqui, neste espaço livre de debates, alguma reflexão sobre a questão da UNIÃO e da UNIFICAÇÃO no movimento espírita. Por isso, permiti-me alterar o título do "assunto" ali acima exposto, para este novo.
Já disse, em alguns artigos que escrevi, que considero o chamado processo de UNIFICAÇÃO, tal como implementado a partir da política hegemônica da Federação Espírita Brasileira (e estendida ao movimento mundial através de seu braço internacional, o CEI) altamente prejudicial aos ideais de UNIÃO dos espíritas. Esta, segundo propunha Kardec, deveria se dar de forma horizontal, a partir dos princípios gerais que todos aceitamos, e, jamais, a partir da interpretação de um grupo ou, mesmo, de um país cujo movimento quisesse impor suas interpretações particulares e seu modelo de administração para os demais.
A política hegemônica que daqui se irradiou tomou como "dogmas" algumas interpretações feitas por espíritos (encarnados e desencarnados) com forte influência histórica católica. A partir do mito "Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho", sedimentou-se a ideia de que a "religião espírita", aqui implantada em cumprimento a uma missão verdadeiramente divina, deveria seguir tais e tais princípios (alguns deles claramente anti-kardequianos) e sob uma estrutura institucional igualmente sagrada e missionária.
De uma maneira geral, todos nós que ingressamos no movimento inseridos nesse esquema sedimentamos no mais íntimo de nossa consciência, no inconsciente talvez, essa ideia de que, afastando-nos dele, estaríamos, "ipso facto", renegando o próprio espiritismo. Trouxemos isso de nossas vivências religiosas passadas, onde a obediência à Igreja é um princípio tão forte que, havendo conflito entre ela e a nossa consciência, deveríamos, assim mesmo, permanecer fiéis à Igreja, silenciando nossa consciência.
Essa ideia, da qual, por razões políticas, se apropriou também o movimento espírita chamado "unificador", é a própria garantia da hegemonia e do poder. E isso causa um estrago tão grande em nosso inconsciente que, mesmo quando tomamos atitudes de ruptura, como aquela que muitos de nós já tomou, persiste - queiramos ou não - um certo sentimento de culpa e uma vaga sensação de ilegitimidade de nossa condição de espíritas. É como se houvesse sedimentado em nós a crença de que fora das federações não houvesse espiritismo. Algo assim como em alguns movimentos iniciáticos (a maçonaria, por exemplo), onde vigoram alguns princípios férreos de "regularidade", ausentes os quais, o sujeito, mesmo professando todos os princípios inerentes à ordem, não pode se apresentar como maçon, pois que não formalmente ligado a uma instituição tida como "regular".
Por isso também, quando temos a coragem de romper, resta em nossos espíritos um certo quê de frustração, de ausência, de perda, que cria a necessidade de, a todo o momento, nos justificarmos perante nós e perante os outros.
Esse sentimento só poderá ser inteiramente debelado quando formarmos entre nós um elo que una todos os espíritas realmente progressistas e livre-pensadores. A ASSEPE e a CEPA têm isso muito claro. Creem na união entre todos os espíritas, a partir daqueles princípios e valores que a todos nós parecem claros, mas rejeitam essa obediência cega a princípios impostos institucionalmente, de cima para baixo, e insuscetíveis de discussão e debate.
Kardec queria que o progresso do espiritismo se desse a partir de seus Congressos que teriam autoridade para introduzir princípios novos ou modificar entendimentos anteriormente adotados, a partir do consenso obtido nesses eventos. O livre exame e a capacidade de discutirmos ideias fundadas na realidade do espírito seria o nosso elo de UNIÃO. A política de UNIFICAÇÃO, ao contrário, parte de alguns posicionamentos, pretensamente ditados pelos "espíritos superiores" (não mais que meia dúzia, interpretados por dois ou três médiuns "confiáveis"), e que devem ser aceitos sem contestação ou debate. Isso é o que também estabelece a diferença entre "religião" e "livre-pensamento". Romper com aquela e dedicar-se a este não é tarefa fácil para qualquer um de nós. Mesmo depois de concretizada a ruptura, guardamos, sem querer, pruridos difíceis de remover. O mais fácil e cômodo é reproduzirmos esse mesmo modelo no nosso movimento, como historicamente temos feito. Tenho dito, igualmente, que é muito mais fácil "mudar de religião", como, por exemplo, deixar o catolicismo e adotar a religião espírita, do que torna-se um livre-pensador (que é uma condição inerente ao verdadeiro espírita).
Bem, digo tudo isso, para, uma vez mais, deixar meu incentivo a todos aqueles que protagonizaram o recente episódio da Federação Espírita da Paraíba, mas também para dizer a eles que a só retirada política e institucional não resolve o problema. Quem toma uma atitude dessas gera inquietações íntimas que antes não tinha e que, a partir de agora, terá de administrar com serenidade e com espírito de liberdade. Isso é apenas o primeiro passo. Corajoso, mas que abre ao espírito uma caminhada cheia de desafios e de desconfortos.
Agora, que vale a pena, vale!
Abraços
Milton Medran - Porto Alegre

Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

DO MÉTODO

Néventon Vargas*

No capítulo terceiro d’O Livro dos Médiuns Kardec não aborda, como à primeira vista pode parecer, o método de pesquisa que deu origem à formulação dos princípios doutrinários, mas sim o método de ensino do Espiritismo. Nele, enfatiza que “... é por experiência que dizemos consistir o melhor método de ensino espírita em se dirigir, aquele que ensina, antes à razão do que aos olhos”.
Isto me leva a refletir sobre outros aspectos que têm afligido coordenadores de grupos mediúnicos no que se refere às evocações.
Outro dia apareceu na lista da CEPA a seguinte questão: Se a orientação de Kardec em O Livro dos Médiuns é que evoquemos os espíritos para sabermos o porque de provocarem perturbação ao nosso redor (item 90 do Cap. V da 2a parte), por que nas casas espíritas não existem reuniões desta categoria, sendo este assunto muitas das vezes tratado como um tabu e por que Kardec dá preferência aos médiuns escreventes e não aos psicofônicos?
Existe sim no Movimento Espírita um certo preconceito quanto às evocações, havendo, inclusive, a recomendação para que não se exerça tal prática, com a justificativa de que os espíritos que dirigem a reunião é que se encarregam de conduzir as manifestações mediúnicas de acordo com os seus critérios e a seu juízo. Entretanto, normalmente nas reuniões que têm o objetivo específico para desobsessão, há uma seleção prévia dos assuntos que devem ser tratados e pelo simples fato de haver a citação do caso e os respectivos envolvidos é como se uma forma de evocação estivesse sendo realizada. Isto quando não são pedidas as presenças dos espíritos participantes do assédio.
Outra ressalva que precisamos fazer é que os desencarnados são co-participantes dos grupos mediúnicos e, apesar de muitas vezes apresentarem melhor preparo do que nós, nada impede que do nosso lado tomemos as providências que julguemos necessárias, sempre visando o melhor aproveitamento possível, para nós e para eles.
Tantos escrúpulos diante das manifestações mediúnicas originaram-se do zelo extremado de certos dirigentes que se preocupavam com o uso indiscriminado das evocações, sem qualquer critério e cuidados tão recomendados por Kardec e pelos espíritos auxiliares da codificação. Com a proliferação dos grupos de estudos, conscientizando-se da necessidade de uma preparação mínima para formação de grupos mediúnicos, já não há necessidade de tanto acanhamento no exercício das evocações. Consideramos até que elas são necessárias na maioria das vezes, havendo um objetivo bem determinado na reunião.
Quanto à preferência de Kardec pelos médiuns de psicografia, compreende-se perfeitamente. Todo o trabalho sério deve preservar o máximo a fidelidade do texto no momento da comunicação, para que se possa fazer uma análise consciente e confiável, o que não seria possível se não houvesse um registro preciso do que fora dito. Como ainda não existiam os recursos tecnológicos que temos hoje, possibilitando a fiel gravação da voz, evidentemente a única escolha possível era a escrita, por ser o meio mais fiel. Portanto, é desejável que utilizemos sempre os melhores e mais modernos meios disponíveis para registrar as reuniões.
Hoje, havendo possibilidade, devemos utilizar filmadora, gravador digital, computador, notbook, etc. Assim, nosso trabalho de avaliação das comunicações mediúnicas ficará bastante facilitado.

* Presidente da ASSEPE – Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa - PB; Secretário de Comunicação Social da CEPA – Confederação Espírita Pan-Americana.

Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

ELE

Nevo

Ele tem muitas faces.
Não. Não é um caso de personalidades múltiplas. Trata-se apenas de vê-lo sob diversos ângulos: o filho, o irmão, o homem, o marido, o pai, o profissional, o cidadão. Posso vê-lo também como estudante, político, filósofo; espírito, amigo, mentor. Hoje, avô e bisavô.
Ele nasceu anônimo, na periferia de uma pequena cidade. Anônimo para a sociedade, tal como tem vivido os últimos oitenta anos. Anônimo por ser humilde e modesto, nunca por insignificância, por inteligência medíocre ou por ausência de virtudes. Mas teve o privilégio de ser o querido primogênito de um casal que se amava e respeitava, obedecendo a princípios absorvidos com as múltiplas experiências e pela dedicação ao estudo a ao trabalho incansável no meio espírita quando ainda eram comuns a discriminação e o preconceito com “a doutrina do demônio”.
Ele sempre foi um rebelde e radical. Não que tivesse desvios de comportamento ou moral duvidosa ou ainda que pudesse ser considerado mau-caráter. Simplesmente se caracterizava por uma inconformidade em aceitar passivamente o tradicional sem um exame apurado e o uso imprescindível da razão.
Na infância, não deu sossego aos mestres, numa época em que a educação era monopolizada pela religião, com a força do seu poder e pensamento tradicionalmente dogmático. Não se admitia lançar a dúvida quanto às verdades tidas como inquestionáveis. Adulto, não se conformava com a ordem vigente, colocando em risco a segurança própria e de sua família na defesa de seus ideais.
Ele nunca foi religioso no entendimento mais usual. Nunca foi afeito às atitudes piegas de contrição, de devoção, de idolatria, de superstição.
Ele é uma pessoa bem humorada e que sempre tem uma saída inteligente para as situações mais simples como para as mais delicadas.
Ele é espírita e foi minha referência desde as primeiras investidas para a busca desse conhecimento. Ele esteve presente em todos os movimentos do Espiritismo e acompanhou a sua evolução na cidade em que nasceu e vive até o presente.
Hoje, quando me olho o vejo num outro tempo, com oportunidades diferentes, com outras experiências e num contexto diverso, como se fosse ele vivendo a minha vida. Imagino que se eu tivesse vivido no seu tempo, vivenciando todos os episódios de sua vida, seria exatamente como ele foi quando teve minha idade.
Durante nossas caminhadas matinais observo o seu passo forte e decidido, mas já vacilante em função de um organismo físico debilitado pelo tempo e incapaz de refletir a jovialidade espiritual e a agilidade de pensamentos. Então eu o olho e me vejo no futuro, se tiver, como ele, a felicidade (ou não!?) de chegar até lá.
Mas, pensando bem, a sua presença, o seu pensamento, a sua postura, sempre me infundiram confiança e segurança. Lembro-me que na infância, em momentos de aflição e medo, quando os pesadelos me inquietavam, quando me aterrorizava o desconhecido, quando a escuridão me dava pavor, o primeiro grito que me saia da garganta era: PAAAI!


Livre Pensar

Liberdade para ir e vir, para realizar, para protestar, para divulgar, para pensar... São condições que todo o ser humano almeja para si, mas nem todas são acessíveis a todos. A única que ninguém pode nos impor limites é a liberdade de pensar. Portanto, numa primeira avaliação, quando se fala em livre pensar, conforme tem aparecido em algumas análises, se comete uma redundância porque todo o pensamento forçosamente seria livre. Entretanto, se formos mais a fundo na questão podemos descobrir que a liberdade de pensar não é tão absoluta, assim como as outras formas de liberdade nem sempre têm seu cerceamento imposto por terceiros.

Cabe uma reflexão em torno do auto-aprisionamento em que indivíduos se impõem uma reclusão. Aqui podemos nos referir apenas àqueles que optam por uma vida de total clausura por escolha livre e consciente ou aos que não vêem outra alternativa para sua proteção, defendendo a sua integridade física por ter desenvolvido fobias das mais diversas que não estão em análise no momento.

Quando se fala em pensamento também podemos cogitar que o cerceamento da liberdade não pode ser imposta por terceiros e que, portanto, todos seríamos livre-pensadores. Mas se por um lado ninguém pode ter o domínio absoluto sobre o pensamento de terceiro, por outro, cada indivíduo, sendo senhor de si para pensar, pode se impor clausura mental e se recusar ao uso do raciocínio, preferindo aceitar sem reflexão as idéias prontas e acabadas, como se o universo do pensamento não fosse dinâmico.

Livre pensar não é apenas pensar. Livre pensar é pensar com isenção, sem os condicionamentos impostos pelo tradicional ou por qualquer tipo de dogma. O livre-pensador desenvolve o seu próprio raciocínio, calcado na própria capacidade intelectual e, portanto, deve ter consciência das suas limitações, como também de que o saber é progressivo, sendo natural apoiar-se nas mais diversas fontes, mas nunca tê-las como infalíveis.

O livre-pensador é intelectualmente honesto e não se recusa a analisar uma idéia por mais estranha que lhe possa parecer. Não admite como verdadeiras teses propostas apenas pelo fato de provirem das mais famosas fontes nem tê-las como falsas apenas por terem origem desconhecida.

O livre-pensador pode se dobrar às decisões unânimes, mas nunca se deixará convencer apenas pela unanimidade.

Enfim, todos somos reféns do sincretismo filosófico, religioso ou científico, como resultado de um processo dialético interminável, mas o livre-pensador rompe paradigmas, buscando sempre alternativas possíveis que o levem a novos caminhos com horizontes cada vez mais distantes.

O livre-pensador espírita tem em Allan Kardec uma referência significativa, uma mente brilhante e de bom senso incontestável, mas sem considerá-lo infalível. As anotações d’O Livro dos Espíritos sempre são consideradas com o peso exato de um livro escrito num contexto próprio para o seu tempo e passíveis de revisão conforme os avanços do pensamento humano. As intervenções dos espíritos são respeitáveis, mas tão consideradas quanto as opiniões dos maiores pensadores encarnados.

* Néventon Vargas é presidente da ASSEPE e Secretário de Comunicação Social da CEPA

Domingo, 3 de Agosto de 2008

PLANO DE VIDA

Acredito firmemente que o planejamento em tudo o que fazemos é um precioso instrumento para que as ações sejam mais eficazes e possamos colher os resultados com satisfação redobrada, em face à constatação de que nosso trabalho foi coroado de êxito conforme estava previsto. Entretanto, nem sempre o cuidadoso detalhamento prévio garante a materialização do que estava planejado.
Eu estava em frente ao computador, preocupado em colocar em ordem a correspondência, pensando no tema do texto que deveria preparar (inicialmente tinha pensado em escrever sobre “dogma”), enquanto trocava idéias no Messenger com um amigo sobre nossas atividades futuras, amanhã, semana que vem, próximo ano,... Toca o telefone, eu atendo, converso alguns instantes com uma pessoa e logo tudo mudou com as informações recebidas. Desculpei-me e me despedi do amigo do Messenger. Meu foco já era outro, não fazia mais sentido me preocupar com os acontecimentos futuros e eu então, após uns momentos de reflexão, como num flash, encontrei um tema novo para escrever: preparação para a morte. Isso mesmo: preparação para a morte! Qual o problema? Nós todos estamos preparados? Qual a conexão com o que foi relatado? — A morte como outro episódio qualquer da nossa vida pode alterar completamente nossa linha de ação.
Eu sei que muitos não gostam de falar sobre o assunto e, se for espírita então, logo tem a resposta: “— A morte não existe!”. Esta é uma questão que dificilmente decidimos encarar, sem meias palavras, sem subterfúgios e sem bater na madeira, num gesto tradicional e supersticioso de quem quer afastar de si ou dos entes amados algo que é inexorável.
Tentemos imaginar que temos todo um plano de vida, traçado a longo prazo, e de repente nos vemos surpreendidos por um episódio que nos obriga a mudar totalmente nossas diretrizes, pois tudo o que estava antes previsto passou a ser irrelevante diante da nova situação. Apesar de um evento certo, não foi considerado porque o instante não estava determinado. Precisamos reavaliar a nova realidade e redirecionar nossas ações e objetivos.
Assim é a morte. Semelhante a um fato previsível cujo momento do seu acontecimento não pode ser determinado, ela pode aparecer de repente, nos tirando do tempo e espaço em que habitávamos até então, obrigando-nos a alterar totalmente nossas concepções em relação ao ambiente circundante e às personalidades que nos rodeiam.
Certo. O planejamento não garante o resultado! Mas ele dá o conhecimento de causa que habilita ao redirecionamento conforme as circunstâncias. Sem ele, faltará a segurança, a presença de espírito, o bom senso, o desprendimento e a autoridade para tomar decisões rápidas e conscientes, traçando novas diretrizes. Nunca seremos pegos de surpresa e sempre teremos uma alternativa viável que, embora não tenha sido pensada, estava armazenada no subconsciente, resultado do labor sério e responsável.
Por tal princípio, quando a morte chegar estaremos preparados para ver a nossa vida por outro ângulo, dialogando com nossos pares, familiarizando-se com o novo ambiente, refazendo projetos conforme com a realidade que se apresenta.
Entretanto, precisamos ter em mente que sem podermos determinar o momento fatídico devemos também estar preparados para ainda permanecermos muito tempo encarnados, com todas as injunções inerentes ao fardo que carregamos e o seu desgaste natural pelo envelhecimento. Isto significa dizer que devemos nos preparar para a VIDA.
Ora, se eu planejar minha vida e souber que ela continua mesmo após o perecimento do corpo, não há com o que me preocupar. Estarei onde eu quis estar, junto de quem eu queria, fazendo aquilo que eu planejei, dando seqüência aos meus esforços terrenos e, talvez, em condições bem melhores. Tudo resultado de planejamentos e ações anteriores.
Então pergunto:
— Devemos nos preparar para a morte?
— Não. A morte não existe!

Auto-Estima e Cidadania

Nevo

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Quando comecei a ler o livro “A Dança do Universo”, de Marcelo Gleiser, a primeira idéia que me ocorreu foi que nós, brasileiros, temos a triste mania de valorizar o que vem de fora, ignorando os enormes valores que possuímos. O físico brasileiro é conhecido e reconhecido internacionalmente, lecionando e fazendo palestras. Possui um estilo de agradável leitura e linguagem acessível a qualquer leitor, mesmo que não detenha conhecimentos de Física, colocando ao alcance de qualquer pessoa o entendimento resumido da evolução filosófica e científica no que se refere à criação e o funcionamento do universo. É um instrumento importante para melhor nos conhecermos e compreendermos do mundo em que vivemos.
A auto-estima danificada do brasileiro compromete a percepção do verdadeiro fascínio que nosso chão e nossa gente exercem sobre os estrangeiros. Nem percebemos nossos valores naturais e intelectuais que são exportados para todo o mundo sem que haja grande preocupação com a preservação dos direitos tão propalados em sociedades mais mercantilistas (ou materialistas?). Isto também identifica valores espirituais mais raros em outros países.
Na carona do precário espírito cívico do brasileiro e da sua passividade, paciência e eterna esperança aproveitam-se forças tendenciosas e espertíssimas para mexer com seus brios e lançá-lo em aventuras cujos resultados invariavelmente beneficiam poucos em detrimento da grande massa.
Assim fizemos nossa “independência” (ou morte?), nos aventuramos nas guerras cisplatinas, na guerra do Paraguai, na segunda guerra mundial e ficamos entusiasmados com o “milagre brasileiro”, só para citarmos os fatos mais significativos.
Neste mesmo patamar se situa o chamado “pacto áureo”, calcado numa obra de título apelativo, promovendo o Brasil ao status de “coração do mundo, pátria do evangelho”, propalado pela Federação Espírita Brasileira e ainda hoje evocado por muitos conservadores Espíritas que buscam uma hegemonia utópica e repetido por pessoas menos avisadas que foram “doutrinadas” nesse contexto. A maioria nem sabe do que fala, fica na superficialidade, acha linda a pomposidade do título do livro de Humberto de Campos e nem tem o trabalho de analisar o seu conteúdo.
Frases de efeito são repetidas e divulgadas insistentemente, vindo ao encontro da índole mística do nosso povo, terreno fértil à massificação do Espiritismo, que, via de regra, não é compreendido em toda sua amplitude.
Quando conhecemos pessoas espíritas é normal que as primeiras conversas sejam um desfiar de atividades de assistência aos necessitados. Até se apóiam na afirmação de Kardec que “fora da caridade não há salvação” para justificar o empenho nas práticas assistencialistas. Justas, benéficas, meritórias, mas limitadas porque não estimulam a auto-estima ou a conquista da cidadania.
A expansão de cunho religioso avança pelo mundo com a influência poderosa do CEI – Conselho Espírita Internacional. Entretanto, estamos cada vez mais distantes do Espiritismo de Kardec, com seu perfil perquiridor, despido dos acessórios que o induzem ao religiosismo, apesar da postura aparentemente mais democrática da atual diretoria da Federação Espírita Brasileira.
O viés religioso por si só não é pernicioso. Ao contrário, pode ser extremamente benéfico desde que não se atenha aos modelos vigentes no mundo ocidental, que tendem ao descrédito em função do conservadorismo, do dogmatismo e do antagonismo em relação às ciências. Além, é claro, daqueles que abrigam aproveitadores de última hora que se beneficiam da fé alheia para amealhar recursos financeiros.
Vivemos um momento peculiar da nossa história, em que cada vez mais se preconiza a conquista do homem livre, participativo, educado. Esta idéia já habita a psicosfera das sociedades que buscam a modernidade e dos indivíduos formadores de opinião. Entretanto, ainda precisamos vencer muitos obstáculos, no nosso próprio íntimo ou na sua projeção nos grupos de atuação, para superarmos o corporativismo e os interesses localizados que emperram a marcha para o equilíbrio e justiça social.
Eis um rico filão a ser explorado! Enorme campo de atuação bastante adequado ao Espiritismo!
Os espíritas, compreendendo bem a filosofia que abraçamos, temos papel importante a desempenhar na construção de uma sociedade mais justa, exatamente por duas características fundamentais: compreensão da vida em toda sua amplitude e responsabilidade individual na evolução pessoal e social.
Assim sendo, precisamos transpor as barreiras que nos mantêm confinados aos centros espíritas onde as tarefas do cotidiano são exercidas há décadas ignorando completamente a realidade social e política em que vivemos. Precisamos mais do que nunca salientar a característica questionadora, progressista e livre-pensadora do Espiritismo, ombreando com as políticas públicas que hasteiem ao topo a bandeira da liberdade através da educação.
Não é caminho fácil porque a carência moral é ainda monstruosa, mas a conquista da cidadania passa exatamente pela superação dos pequenos e grandes malefícios que infestam todas as organizações, exigindo paciência e perseverança para alcançar a vitória, ainda que gradual e lentamente.

Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

Arbítrio

Névo

Penso.
Reflito.
Observo.
Pondero.

Escrevo?
Não escrevo?

Sofro.
Amo.
Orgulho-me.
Vivo.
Ajo.
Cresço.
Aprendo.
Não ajo.
Tapeio.
Estaciono.

Decido.
Erro.

Decido.
Recrio.
Acerto.
Cresço.
Obedeço.
Nasço.

Penso,
Reflito,
Observo.
Pondero.
Refaço...
Instruído,
Abjugo.

Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008

Eterno Infinito

Névo

Penso no tempo,
Não concebo término.
O tempo zero é agora.
Infinito para o passado,
Infinito para o futuro.
Olho em volta,
Não vejo fim.
Eu sou o centro.
Eu sou único.
Ninguém está onde estou,
Ninguém é como eu.
Estou no meio do mundo.
Estou a meio caminho.
Ou, talvez, mal tenha começado.
Se eterno sou,
Não fui criado.
Se criado fui,
Acabei de nascer.
Sendo eterno,
Não tenho começo...
Nem fim!
Nascimento e morte
Estão eqüidistantes de mim.
Sendo infinito, nasci.
Mas não morrerei!
Se não tinha consciência,
Com ela vivi.
Nasci agora...
Meu futuro é infinito!
O meu presente é futuro.
Meu futuro é presente.

Consolador, sim — Prometido, talvez

Uma questão que me intriga e que se repete em minha mente constantemente é a decisão de Allan Kardec, nosso insigne mestre de Lion, ter identificado no Espiritismo a promessa feita por Jesus há dois mil anos.
Consultando o Houaiss verifiquei que o sentido da palavra “consolador”, abstendo-se, evidentemente, das conotações figuradas e religiosas, cabe perfeitamente para o Espiritismo.

Não pretendo, entretanto, fazer aqui uma defesa da adjetivação, pois isso já está feito com brilhantismo n’O Evangelho Segundo o Espiritismo e nas outras obras escritas por Kardec. Tal caráter já está devidamente caracterizado em toda quarta parte d’O Livro dos Espíritos, intitulada “Das esperanças e Consolações”.

Mas, “consolador” é apenas um adjetivo que pode ser precedido de muitos substantivos. O problema começa a aparecer quando a palavra é usada como substantivo, seja para designar o Espiritismo, seja para identificar qualquer outra filosofia, idéia, pessoa, religião, etc. Qualquer uso nesse sentido o tornará absoluto, o que é incompatível com o mínimo de modéstia e humildade. Eu diria ainda mais: que é extremamente pretensioso.

Uma postura dessa natureza não se encaixa na Filosofia Espírita, que é, acima de tudo, libertadora e nunca deveria nos aprisionar a dogmas e a expressões cristalizadas que comprometem o seu caráter eminentemente progressista.

Até agora, só me referi à palavra “consolador”. Agrava-se o problema quando se adjetiva o substantivo com a palavra “prometido”. Esta forma está expressa n’O Evangelho Segundo o Espiritismo, no seu capítulo 6 e a sua defesa foi feita nos itens 3 e 4 pelo próprio Kardec. Tal identificação coloca o Espiritismo como o herdeiro direto de Jesus, à revelia das religiões cristãs, criando um antagonismo totalmente desnecessário.

Respeito profundamente Allan Kardec, mas me recuso a designar o Espiritismo como “O Consolador Prometido”. Não estou afirmando que ele está errado. Estou dizendo que posso até aceitar que a Doutrina Filosófica e Moral, chamada Espiritismo, seja realmente aquilo que Jesus pensava quando, segundo a citação no Evangelho (João 14:15 a 17 e 26), disse que o Pai enviaria outro Consolador. O que não aceito é repetir e propagar isso, a exemplo das religiões salvacionistas que pregam serem a única verdade e o único caminho para a salvação.

Não precisamos despender muito tempo em pesquisas para encontrarmos inúmeros exemplos na história e até na atualidade de posturas extremamente perniciosas para a evolução da humanidade, em que nações, grupos ou indivíduos se acham detentores do poder e da verdade, únicos “escolhidos de Deus” para elevar o homem à santidade. A conseqüência disso tem sido o estímulo ao segregacionismo e ao preconceito que levam, invariavelmente, às guerras coletivas e individuais.

É hora de o homem abrir a sua mente para as diversidades e aprender com elas. É hora de o Espiritismo rever conceitos e posturas que estejam criando obstáculos às relações humanas. Afinal, se ele não é uma seita, se os seus princípios são universais, se a sua busca constante é pela verdade, ele não é exclusividade dos espíritas. Ele é do homem para o homem, dos espíritos para os espíritos, independente de qualquer rótulo, tempo e/ou espaço.

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